Certamente não há melhor lugar para começar que o início; portanto deixarei de lado, por hora, as respostas aos comentários.
Era uma vez um homem que viveu muito tempo atrás. Ele morava numa cidade próspera, civilizada e avançada para a sua época. Esse homem era casado, mas não tinha filhos; herdou o negócio de seu pai, e trabalhava todos os dias vendendo cântaros (um tipo de vaso) de barro. Este homem viveu na mesmo terra desde que havia nascido e seus ancestrais ali viviam também há muitos séculos. Mas, o que havia de especial neste homem?
Essa estória vem sendo contada há muitos anos, tenho certeza que você a conhece em algum ponto. A cidade onde este homem morara se chamava Ur na região da Caldéia na Mesopotâmia, a civilização era a antiga Babilônia, sua mulher se chamava Sarah e seu pai se chamava Terá. Ele pertencia à nona geração dos filhos de Sem (um dos filhos de Noé – aquele da arca e do dilúvio) e é por isso que todos os seus descendentes são chamados genericamente de semitas.
Abraão era um homem pacato e pacífico, ao menos assim o descreve a Torah, o livro que contém o texto central do judaísmo e que também é um texto básico compartilhado pelo Alcorão e pela Bíblia cristã. Não é difícil encontrar fontes que descrevem a genealogia de Abraão até Adão, e é por causa dessa ascendência que ele se tornou o ponto central da estória que estou contando. Ele teria vivido há, aproximadamente, 4.000 anos.
Não cabem aqui questionamentos como “Isso é verdade?”, “Existem provas?”. Peço a todos que aceitem os acontecimentos como vocês aceitariam um conto de ficção. A estória não é ofensiva a ninguém e se é verdadeira ou não é secundário neste momento. O que é importante frisar aqui é que esta estória é o pilar das três maiores e mais bem sucedidas religiões monoteístas que existem hoje em dia: o judaísmo, islamismo e o cristianismo.
Conta esta estória que Abraão teria recebido uma missão de D’us. Mas a missão não foi dada por qualquer deus, se tratava do único D’us, o de seus ancestrais. A Babilônia era uma civilização politeísta panteísta; a idéia de um único deus soaria para eles tão estranha como se alguém te dissesse hoje que quando morremos viramos samambaias… logo, deve ter sido muito difícil para Abraão convencer seus familiares a cumprir essa missão. Ele mesmo provavelmente cultuava deuses como Marduque, Baal, Zu (aquele dos Caça-Fantasmas) e estava muito feliz com isso.
Como se já não bastasse ter que convencer todos da existência de um único ser supremo, a missão que lhe foi dada também não era das mais fáceis de engolir: Abraão deveria se mudar de sua cidade e se estabelecer em Canaã. Canaã seria a “Terra Prometida” aos ancestrais de Abraão e ele deveria ir para lá, onde “jorravam leite e mel” por toda parte.
Um detalhe interessante sobre isso é que, realmente, a terra chamada Canaã era tudo menos um lugar maravilhoso para se morar, comparada a Ur. Foi dito a ele também que ele seria o pai de uma grande nação com mais descendentes que as estrelas no céu e que ele seria vitorioso em subjugar nações maiores e mais fortes que já habitavam a região. Bom, mesmo com todos os contras Abraão se mudou para Canaã; lá chegando, obviamente não foram bem recebidos pelos habitantes locais, genericamente chamados de cananeus, mas que representavam diversas etnias e nações diferentes.
Esses moradores passaram a chamar os invasores caldeus de “hebreus” – descendentes de Éber, descendente também, por sua vez, de Sem; ou, em outras interpretações, aqueles que vieram do outro lado do rio (Jordão). O próprio nome Canaã deriva do nome de um neto de Noé, cujo pai teria sido amaldiçoado pelo avô por tê-lo visto bêbado e nu (os descendentes de Can, pai de Canaã, incluiriam: os antigos Fenícios, Hititas, Egípcios e Filisteus entre outros).
Bom, agora Abraão está em Canaã, onde não havia leite nem mel, cheio de vizinhos em volta que não os queriam por perto, com um monte de gente sem saber por que estavam lá e esperando para ser o pai de uma grande nação. Acontece que Abraão tinha um pequeno problema para realizar esta última solicitação – Sarah, sua mulher, era estéril.
Esta estória é uma ferramenta que quero usar para mostrar que existem mais coisas em comum a todos nós judeus, muçulmanos e cristãos do que muitos imaginam, acreditam ou querem aceitar. E vai servir de ponto de partida para minha série de posts que tentarão explicar (mas não justificar) o, aparentemente, eterno conflito entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes. No próximo post contarei como Abraão concretizou o desejo de D’us e se tornou, de fato, pai de uma nação com mais descendentes que as estrelas do céu.
Aconselho aos interessados que leiam também na coluna de Cora Ronai a matéria “A guerra perdida”, que saiu no O Globo de 15/01/2009, que traduz muito do que tento dizer aqui. Até lá…
















17 de January de 2009 às 06:25
Bem, qualquer um – com pelo menos 5 anos de escola – sabe que os Judeus e Arabes são, basicamente, primos, até irmãos. Ambos são semitas – o que torna ainda mais ridículo o fato de muitos chamarem alguns Árabes anti-Judeus (na verdade anti-Israelenses na maioria das vezes) de antissemitas, oras, seria eles anti eles mesmos? – e tem uma história em comum até um certo período.
A questão básica não é histórica. E religiosa. Vamos nos concentrar primeiro na histórica.
Há a corrente que defende que os Palestinos sejam descendentes dos filisteus, arabizados e islamizados ao longo do tempo, logo, anteriores ou ao menos contemporâneos dos Hebreus na região – daí o fato de “Palestino” em árabe ser “filistine”, de Filisteu. Mas essa teoria é bem contestada pelos Gilisteus originalmente não serem de origem árabe mas sim grega.
Outra teoria interessante é a de Shlomo Sand, um historiador judeu que defende a tese de que a diáspora é uma farsa, que os Judeus na verdade descendem em sua maioria do Reino de Khazar, na região do Cáucaso e que é de lá que veio a maioria dos Judeus, e não da Palestina, oque diminuiria o “direito histórico” dos Judeus de habitar àquela região.
Um terceiro ponto, e válido, é que, tendo sido ou não expulsos – já os que dizem que a franca maioria saiu da Palestina por sua própria vontade e só uma parcela foi realmente expulsa – os Judeus já não tem o direito de “tomar” ou “retomar” uma terra que deixaram ha 2 mil anos e que é habitada desde então por Palestinos e povos semelhantes. Se fosse desabitada, ok mas não podemos esquecer que lá vivem milhões de Palestinos, muçulmanos ou cristãos e que não pode ser simplesmente expulsos. Não é crível que os Judeus reclamem sua expulsão e faça o mesmo 2 mil anos com outro povo.
Mas, a grande questão para os judeus não é histórica e sim religiosa. Eles acreditam, segundo sua Torah e costumes, que a terra é deles, é prometida e ponto. Nessa parte não há discussão. Religião não se discute, se lamenta pois não existe pragmatismo ou consciência na religião, não se “acha”, se sabe, se quer, se toma e ponto.
E é isso que fizeram e continuam fazendo os Sionistas e demais judeus que apoiam Israel. Os árabes, de início, conviviam perfeitamente bem com os Judeus na região, sob o governo Otomano (conviviam bem eu digo dentro de um limite aceitável, todos sabem que mal ou bem os Otomanos eram costumeiramente excelentes governantes e tratavam bem suas minorias religiosas) e sob o governo britânico inicial. Alguns Judeus inclusive foram bem recebidos na Palestina quando emigraram, antes de Hitler.
Mas chegou num ponto em que os Judeus começaram a comprar as terras ou expulsar os Árabes.
Claro, não vou dizer que todos os árabes eram santos, o Mufti de Jerusalém, por exemplo, a maior autoridade na época na Palestina, apoiou Hitler e odiava Judeus, mas tal pensamento contrastava com a da maior parte da Palestina, laica, simples e sem ligações políticas relevantes. E isso não li só em livros como ouvi de um grande amigo Palestino que é absolutamente pacifista.
OS Israelenses eram terroristas. Menachen Begin, Sharon e etc faziam parte de grupos terroristas como o Irgun ou o terrível Stern que massacravam Palestinos e inclusive britânicos. foram os Israelenses os primeiros a atacar civis na região para conseguir sua terra. Mataram mais de 90 no Hotel Rei David, civis, britânicos, árabes e judeus. E não pararam por aí. lembremo-nos de Sabra e Shatila e dos massacres diários. Em dez anos morreram mais de 10 mil palestinos, e nem 50 judeus israelenses. E isso não quer dizer, como disse cinicamente um político Israelense, que Israel toma conta de suas crianças, mas que os Palestinos não tem nem como cuidar delas.
Continuando, Israel é um Estado ilegítimo. NAsceu de massacres de civis, de invasão e expulsão de terras e Palestinos. Gaza é um campo de concentração, pelo menos 700 mil dos 1.5 milhão são de refugiados de Ashquelom, Sderot e etc que foram expulsos e obrigados a viver em guetos.
Dizem que não existe justificativa para os ataques do Hamas, bem, existem. Atacar civis não é correto mas quando você está em um capo de concentração, cercado, impedido de respirar e de ter uma vida você faz o que pode, o que tem em mãos e não pensa nas consequências. Não digo que o Hamas é bonzinho mas ele é reflexo da violência Israelense, é uma resposta aos 60 anos de terrorismo de Estado praticado dia após dia com o objetivo de eliminar os Palestinos, um genocídio.
PS> usei constantemente o termo “judeu” no texto, mas encarem como Israelense. Sou descendente de judeus e não quero passar a imagem errada.