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A Verdade Nua e Crua – Uma comédia que tem como único defeito de ser romântica.

Longa metragem do diretor Robert Luketic transforma boa comédia em filme romântico sem graça

A-Verdade-Nua-e-Crua

Por Felippe Martins

Pense no seguinte cenário: Você está com seu namorado e a noite pede uma sessão de cinema. De um jeito carinhoso, com seus olhos brilhantes, você vira para o seu companheiro e pergunta o que ele quer assistir. Ele diz “Zombieland”. Você, como uma mulher sensível que é, pede gentilmente que desta vez, ele deixe os filme sádicos de lado e lhe acompanhe em uma sessão de cinema leve como uma comédia romântica.

Ele faz uma cara de quem “comeu e não gostou”, mas aceita o programa. A sessão começa com A Verdade Nua e Crua.

A história nos apresenta Katherine Heigl interpretando Abby Richter, uma competente produtora de um telejornal matinal e uma mulher que não consegue fazer suas relações amorosas durarem mais que um encontro. O fato de ela morar com um gato só reforça a idéia de que ela é uma pessoa extremamente sozinha e carente.

Uma noite, acidentalmente, após retornar de um de seus desastrosos encontros, Abby sintoniza em um canal qualquer e começa a assistir ao programa The Ugly Truth (algo como “A verdade feia”) de Mike Chadway (o brucutu Gerard Butler, de 300 e Gamer) um perfeito “macho alfa” que mostra para desespero das mulheres (e alegria dos homens) que entender o mundo masculino é mais fácil do que elas pensam.

No momento em que Abby assiste ao programa de Mike vemos a antipatia que ela sente por um homem tão insensível e terrível: “Você não tem namorado? Deve ser feia então!!” Diz Mike a uma ouvinte do programa.

Abby fica mais surpresa ao descobrir que seu programa de televisão contratou Mike para fazer o “The Ugly Truth” em seu telejornal matinal. E que ela será a sua produtora! A partir daí, “uma série de encontros e desencontros acontece… até o final do filme…”.

No primeiro momento de filme, você leitora, se vira para o seu namorado e percebe que ele está concordando com cada palavra que Mike profere na tela. Tanto você, quanto a personagem Abby, ficam abismadas com verdadeiras máximas que Mike solta como:

Abby Richter: …Some men care!
Mike: No, some men pretend to care. When we ask “how you’re doing” it’s just guy code for “let me stick my dick in your ass”.

Mike: You watched my show!
Abby Richter: My cat stepped on the remote.
Mike: Well, be sure to thank your pussy for me.

Mike: [From red band clip] You’re all about comfort and efficiency!
Abby Richter: What’s wrong with comfort and efficiency?
Mike: Well nothing, except no one wants to fuck it.

Ou seja, a primeira metade do filme é simplesmente feita com Mike ajudando Abby a conquistar um bom partido e mostrando como os homens podem ser (e são) chauvinistas e extremamente egocêntricos de forma inata. E essa é a grande idéia mal aproveitada do roteiro. Mike é um homem com “H” maiúsculo. As mulheres o adoram.

Ele é o tipo de homem que cai na piscina de gelatina com gêmeas devassas e ensina às mulheres a não castrarem emocionalmente os homens. As mulheres deixam mensagens obscenas em sua secretária eletrônica. Enfim… ele é quase um modelo de atitude aos solteiros. E mulheres não me levem a mal, mas muitas das coisas que ele diz são verdades!

É um crime utilizar um personagem desses numa comédia romântica. É como soltar o Chuck Norris em um episódio do Teletubbies e o fazer cantar com os gordinhos animados ou colocar mamilos na armadura do Batman. A primeira questão não é ser ou não uma comédia romântica, mas queimar um personagem fantástico em uma comédia romântica.

Katherine Heigl até tenta realizar algumas piadas interessantes (a da calcinha vibratória é até engraçadinha), mas ainda falta um “timing” cômico para a atriz. Talvez um diretor mais experiente em comédias ácidas fizesse alguma coisa diferente, como os irmãos Farrely fizeram ao desconstruir a comédia romântica com “Quem vai ficar com Mary?”.

Robert Luketic, que dirigiu “Legalmente Loira” simplesmente pega a famosa fórmula batida das comédias românticas: nos deixa interessado na primeira metade com o fantástico personagem de Butler (que realmente vale o filme) e depois nos arremessa ao dramalhão açucarado que fará você leitora, voltar a gostar do filme.

Ao dar uma justificativa para o personagem de Butler ser o que é (e novamente, uma chance de redenção) o filme acaba sendo movido para o lugar comum das comédias românticas, com direito a separação, reencontro, briga e o beijo final. Ou vocês achavam que terminaria diferente?

O mercado das comédias românticas nos EUA é bem lucrativo sendo um produto conhecido, com uma estrutura praticamente fixa. O problema é não haver o algo mais. Com certeza, este pobre que vos escreve acompanhará todas as mulheres que quiserem assistir a uma comédia romântica juntinhos, mas se não houver “algo mais”, e estou me referindo ao filme, preferirei fazer outra coisa…

Felippe Martins é escritor, professor e economista. Além cinéfilo inveterado, edita a área de Cinema do Com Limão e o blog Egoismo do Cervejeiro.

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Comentários
Marcos Paulo diz:
30 de November de 2009 às 16:41

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